Com o objetivo de abrir mais espaço para a música
brasileira de qualidade, entrevisto esse grande artista chamado João
Pinheiro. Para quem não o conhece, ele atualmente divulga
seu novo CD "João canta Sade" , onde mistura
ritmos latinos como o samba, xote, afoxé, ciranda e tango,
interpretando hits da cantora anglo-nigeriana Sade Adu como "Smooth
Operator" e "The Seweetest Taboo". Com duas músicas em novelas da Globo, ele nos conta seus pensamentos.

Como é ser um artista novo no Brasil com a crise do mercado
fonográfico?
Tenho viajado bastante, cada vez conhecendo mais pessoas e vejo
dois tipos de artista novo hoje no Brasil: aquele do
sucesso fácil, da popularidade rápida e imediata
na internet, que independe de gravadora, dos jornais, da TV, das
rádios e de alguns esquemas. Muitos desses têm, na tradução de suas
rimas, o sexo e o beijo banal e a velha submissão da mulher (depois
de tanto elas lutarem por reconhecimento…). Este artista não
tem formação acadêmica, nem conhecimento da história da
MPB e de seus personagens, vive no mundo onde as pessoas
querem ser celebridade sem ter talento algum, mas sabem usar muito
bem da internet.
E tem o artista que reúne e promove saraus, que se preocupa em
“ser de raiz”, seja qual estilo for,
mas gosta também da mistura de ritmos, da contemporaneidade
heterogênea. Tem formação, forte intuição e ligação com o berço na
nossa música e procura, também, no passado o seu
som do presente. Claro que isso não é uma regra geral, mas é o que
eu tenho observado. Assim como os excelentes grupos
musicais de Recife, este sim, grande celeiro atual da nova
música. Quando chegamos ao Rio e São Paulo temos outra realidade,
talvez mais preocupada com o estilo e atitude do que com a própria
música. Isso se vê claramente nos saraus da Zona Sul e com o samba,
tão em voga no Rio de Janeiro: muita atitude, figurino, mas pouca
alma no canto. Temos alguns (poucos) cantores/as novos/as que,
claro, realmente emocionam ao cantar o samba. Ah, o samba! Mas é
também nos grupos, que não têm acesso a grande exposição, onde está
a modernidade ligada ao passado, a novidade, o frescor, o bacana de
fazer e sentir a fundo a música. Isso se encontra nas rodas de
sambas e de MPB na Zona Norte, em Santa Teresa e
nos quintais de Niterói.
Claro que a música é um negócio como outro qualquer e, como tal,
tem que saber valorizar, cobrar, lucrar e viver da profissão.
Acredito que sempre foi mais “fácil” optar pelo artista
bonitinho e que cante direitinho do que investir no verdadeiro
talento. O disco virou um cartão de visita importante e não mais um
meio de se ganhar dinheiro. Esse registro físico ainda fascina. Mas
tenho também respondido a muitas artistas, novos ou não, como é que
eu consigo administrar a minha carreira. Digo: “Eu trabalho,
eu foco, administro e procuro ser feliz dentro da minha escolha, da
minha profissão. Aprendi que as palavras chaves e as frases feitas
são realmente para serem usadas: dedicação, profisionalismo, saber
investir no que tem que ser investido e na medida certa, e que
sucesso e dinheiro são consequência de um trabalho.” Tem
também o tal do marketing pessoal que para mim é saber fazer
política, saber se vender, se produzir e ter a exata noção da sua
aparência de acordo com estilo e discurso. Também é fazer e
estabelecer uma rede de contato. Há tempos tenho uma boa equipe,
desde assistente de produção, até produtor fonográfico e diretor de
cena, passando por fotógrafo, estilista, roadie e imprensa. Gosto e
sempre gostei disso. Mas como manter essa estrutura hoje em dia com
crise na área? A resposta é “todos
temos que trabalhar, e muito”. E a crise também
afeta os artistas novos ou não, na condução de suas carreiras,
ficando assim uma grande parte sem um norte para seguir.

Nelson Motta disse uma vez: " O Brasil é um país de
cantoras". Concorda com essa frase? Cantoras fazem mais sucesso que
homens cantando?
Num primeiro instante cultural do país os homens
dominavam as rádios, os discos e os shows, não havia mulher
cantando, compondo e muito menos tocando instrumento, a não ser um
piano no dia de encontro familiar. Chiquinha
Gonzaga foi uma das primeiras. Isso tem muito tempo,
claro. De um bom tempo para cá as cantoras dominam a atenção e os
espaços da música e, afora Emílio Santiago e outros poucos,
geralmente, os homens cantam suas próprias composições. Mas existe
um bom mercado de cantores, mas fácil de transitar, porém não menos
difícil, competitivo e com o gargalo tão apertado quanto o das
cantoras na disputa por um lugar ao Sol. Temos essa noção das
cantoras como Dalva de Oliveira e Elisete Cardoso, com voz
maternal, a que embala, assim como as vicerais, como Maria Bethânia
que com sua força de interpretação nos emociona. A palavra é mais
forte do que a própria música. E temos as cantoras contralto que
hoje em dia são as senhoras de muitos ouvidos e corações. Somos um
país rico musicalmente, isso é óbvio, diverso e multi colorido nas
suas tessituras vocais. Gosto muito da idéia de ser cantor, somos
poucos ao Sol. Tenho meu mercado e, dentro dele, sou feliz.
Ter uma música na novela ajuda muito na divulgação de um
artista?
Ajuda sim. O poder de uma emissora como a Globo é determinante para
a exposição do seu trabalho, ainda mais quando a novela é um
sucesso nacional, como em “Caras e
Bocas”. Ter uma música na Globo é subir vários
degraus ao mesmo tempo, além de ser o sonho de todo artista, mesmo
para aquele mais blasé. Agora, imagine ter duas faixas de um mesmo
disco na trilha sonora de uma mesma novela? Jorge Fernando,
o diretor, escolheu “No ordinary love”, tema de Ingrid
Guimarães, para o CD Nacional, enquanto “All about our
love”, para o Internacional, ambas cantadas em
inglês. Fiquei imensamente feliz por um profissional como
ele ter tido essa sensibilidade e ter prestado atenção no nosso
álbum. O “João canta Sade” é um projeto vitorioso,
feito com um carinho incomum, aquele carinho sem a preocupação
“do que estará por vir”. Não havia um mote de
comemoração, nem foi feito para ser usado em tal esquema ou mídia,
ele foi feito para satisfazer o meu eu artista e só assim, depois,
satisfazer quem viesse a ouvi-lo. Com a exposição na novela
multiplicou-se, várias vezes, a percepção do meu trabalho.

Como vê o mercado musical no Brasil nos dias de
hoje?
Vejo um mercado confuso ainda, a espera do Messias que irá nos
salvar do encalhe de CDs, da pirataria e nos mostrar o caminho.
Vejo alguns artistas perdidos e pouquíssimos seguros do seu
trabalho e talento. São os que de fato sabem da real possibilidade
do seu potencial, que emergem e brilham. O foco no trabalho e a
segurança no que se faz são dois pontos, entre outros, que
difereciam um artista do outro. E tem-se a clara
impressão de que, quando um cantor(a) dá certo, outros seguirão o
mesmo caminho e estilo. Ao invés de, continuarem com a sua própria
verdade artística, acabam virando os chamados “clones”.
Para mim, isso raramente dá certo. Vejo bandas paulistas abrindo
seus selos e divulgando os discos pela internet e nos shows. Ao
mesmo tempo que ainda vejo artista esperando que um famoso produtor
os descubra. Mas sem trabalho e exposição, isso é raro de
acontecer. É praticamente impossível alguém apostar e investir
dinheiro em algum novo cantor. O produtor quer o artista já no gol
e não mais na boca de fazê-lo. Quer o disco pronto e o artista
igualmente feito logo no primeiro trabalho. É mais fácil, assim,
trabalhar.
Falta espaço para a nova música brasileira?
Espaço a gente cria. Ou então fica por aí reclamando da vida e
pondo a culpa na falta de dinheiro ou na falta de casas de shows
etc. Claro que é fato a diminuição de palcos no Rio, por exemplo.
Mas quando comecei a fazer show em livrarias foi um choque inicial:
“como assim? música na livraria?” E depois vieram os
outros atrás da mesma idéia, achei bacana isso.
A internet facilita a entrada de um artista no cenário musical ou
dificulta, levando em conta que se ela abre espaço para um artista,
abre também para muitos, aumentando a concorrência?
Facilita e trai. Porém acredito que um trabalho de qualidade e
potencial de ganho e venda, jamais vai competir com um trabalho que
não o seja. Tem espaço e público para todos na internet, desde
aquela música engraçada feita apenas para dançar e se divertir até
a mais classuda. A internet bomba, é a nossa televisão moderna, é a
vitrine que nos mostra o mundo, divulga e nos expõe, é imediato e
incrível o resultado.
Qual sua relação com a internet no dia a dia? Quais sites
acessa? quais indica?
Atualmente acesso e me correspondo pelo facebook. E sempre uso do
myspace para ouvir, conhecer artistas do mundo todo e divulgar,
também, os meus trabalhos.