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Entrevista: João Pinheiro  escrito em terça 17 novembro 2009 17:56

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Com o objetivo de abrir mais espaço para a música brasileira de qualidade, entrevisto esse grande artista chamado João Pinheiro. Para quem não o conhece, ele atualmente divulga seu novo CD "João canta Sade" , onde mistura ritmos latinos como o samba, xote, afoxé, ciranda e tango, interpretando hits da cantora anglo-nigeriana Sade Adu como "Smooth Operator" e "The Seweetest Taboo". Com duas músicas em novelas da Globo, ele nos conta seus pensamentos.



Como é ser um artista novo no Brasil com a crise do mercado fonográfico?
Tenho viajado bastante, cada vez conhecendo mais pessoas e vejo dois tipos de artista novo hoje no Brasil: aquele do sucesso fácil, da popularidade rápida e imediata na internet, que independe de gravadora, dos jornais, da TV, das rádios e de alguns esquemas. Muitos desses têm, na tradução de suas rimas, o sexo e o beijo banal e a velha submissão da mulher (depois de tanto elas lutarem por reconhecimento…). Este artista não tem formação acadêmica, nem conhecimento da história da MPB e de seus personagens, vive no mundo onde as pessoas querem ser celebridade sem ter talento algum, mas sabem usar muito bem da internet.

E tem o artista que reúne e promove saraus, que se preocupa em “ser de raiz”, seja qual estilo for, mas gosta também da mistura de ritmos, da contemporaneidade heterogênea. Tem formação, forte intuição e ligação com o berço na nossa música e procura, também, no passado o seu som do presente. Claro que isso não é uma regra geral, mas é o que eu tenho observado. Assim como os excelentes grupos musicais de Recife, este sim, grande celeiro atual da nova música. Quando chegamos ao Rio e São Paulo temos outra realidade, talvez mais preocupada com o estilo e atitude do que com a própria música. Isso se vê claramente nos saraus da Zona Sul e com o samba, tão em voga no Rio de Janeiro: muita atitude, figurino, mas pouca alma no canto. Temos alguns (poucos) cantores/as novos/as que, claro, realmente emocionam ao cantar o samba. Ah, o samba! Mas é também nos grupos, que não têm acesso a grande exposição, onde está a modernidade ligada ao passado, a novidade, o frescor, o bacana de fazer e sentir a fundo a música. Isso se encontra nas rodas de sambas e de MPB na Zona Norte, em Santa Teresa e nos quintais de Niterói.

Claro que a música é um negócio como outro qualquer e, como tal, tem que saber valorizar, cobrar, lucrar e viver da profissão. Acredito que sempre foi mais “fácil” optar pelo artista bonitinho e que cante direitinho do que investir no verdadeiro talento. O disco virou um cartão de visita importante e não mais um meio de se ganhar dinheiro. Esse registro físico ainda fascina. Mas tenho também respondido a muitas artistas, novos ou não, como é que eu consigo administrar a minha carreira. Digo: “Eu trabalho, eu foco, administro e procuro ser feliz dentro da minha escolha, da minha profissão. Aprendi que as palavras chaves e as frases feitas são realmente para serem usadas: dedicação, profisionalismo, saber investir no que tem que ser investido e na medida certa, e que sucesso e dinheiro são consequência de um trabalho.” Tem também o tal do marketing pessoal que para mim é saber fazer política, saber se vender, se produzir e ter a exata noção da sua aparência de acordo com estilo e discurso. Também é fazer e estabelecer uma rede de contato. Há tempos tenho uma boa equipe, desde assistente de produção, até produtor fonográfico e diretor de cena, passando por fotógrafo, estilista, roadie e imprensa. Gosto e sempre gostei disso. Mas como manter essa estrutura hoje em dia com crise na área? A resposta é “todos temos que trabalhar, e muito”. E a crise também afeta os artistas novos ou não, na condução de suas carreiras, ficando assim uma grande parte sem um norte para seguir.


Nelson Motta disse uma vez: " O Brasil é um país de cantoras". Concorda com essa frase? Cantoras fazem mais sucesso que homens cantando?
Num primeiro instante cultural do país os homens dominavam as rádios, os discos e os shows, não havia mulher cantando, compondo e muito menos tocando instrumento, a não ser um piano no dia de encontro familiar. Chiquinha Gonzaga foi uma das primeiras. Isso tem muito tempo, claro. De um bom tempo para cá as cantoras dominam a atenção e os espaços da música e, afora Emílio Santiago e outros poucos, geralmente, os homens cantam suas próprias composições. Mas existe um bom mercado de cantores, mas fácil de transitar, porém não menos difícil, competitivo e com o gargalo tão apertado quanto o das cantoras na disputa por um lugar ao Sol. Temos essa noção das cantoras como Dalva de Oliveira e Elisete Cardoso, com voz maternal, a que embala, assim como as vicerais, como Maria Bethânia que com sua força de interpretação nos emociona. A palavra é mais forte do que a própria música. E temos as cantoras contralto que hoje em dia são as senhoras de muitos ouvidos e corações. Somos um país rico musicalmente, isso é óbvio, diverso e multi colorido nas suas tessituras vocais. Gosto muito da idéia de ser cantor, somos poucos ao Sol. Tenho meu mercado e, dentro dele, sou feliz.

Ter uma música na novela ajuda muito na divulgação de um artista?
Ajuda sim. O poder de uma emissora como a Globo é determinante para a exposição do seu trabalho, ainda mais quando a novela é um sucesso nacional, como em “Caras e Bocas”. Ter uma música na Globo é subir vários degraus ao mesmo tempo, além de ser o sonho de todo artista, mesmo para aquele mais blasé. Agora, imagine ter duas faixas de um mesmo disco na trilha sonora de uma mesma novela? Jorge Fernando, o diretor, escolheu “No ordinary love”, tema de Ingrid Guimarães, para o CD Nacional, enquanto “All about our love”, para o Internacional, ambas cantadas em inglês. Fiquei imensamente feliz por um profissional como ele ter tido essa sensibilidade e ter prestado atenção no nosso álbum. O “João canta Sade” é um projeto vitorioso, feito com um carinho incomum, aquele carinho sem a preocupação “do que estará por vir”. Não havia um mote de comemoração, nem foi feito para ser usado em tal esquema ou mídia, ele foi feito para satisfazer o meu eu artista e só assim, depois, satisfazer quem viesse a ouvi-lo. Com a exposição na novela multiplicou-se, várias vezes, a percepção do meu trabalho.



Como vê o mercado musical no Brasil nos dias de hoje?
Vejo um mercado confuso ainda, a espera do Messias que irá nos salvar do encalhe de CDs, da pirataria e nos mostrar o caminho. Vejo alguns artistas perdidos e pouquíssimos seguros do seu trabalho e talento. São os que de fato sabem da real possibilidade do seu potencial, que emergem e brilham. O foco no trabalho e a segurança no que se faz são dois pontos, entre outros, que difereciam um artista do outro. E tem-se a clara impressão de que, quando um cantor(a) dá certo, outros seguirão o mesmo caminho e estilo. Ao invés de, continuarem com a sua própria verdade artística, acabam virando os chamados “clones”. Para mim, isso raramente dá certo. Vejo bandas paulistas abrindo seus selos e divulgando os discos pela internet e nos shows. Ao mesmo tempo que ainda vejo artista esperando que um famoso produtor os descubra. Mas sem trabalho e exposição, isso é raro de acontecer. É praticamente impossível alguém apostar e investir dinheiro em algum novo cantor. O produtor quer o artista já no gol e não mais na boca de fazê-lo. Quer o disco pronto e o artista igualmente feito logo no primeiro trabalho. É mais fácil, assim, trabalhar.


Falta espaço para a nova música brasileira?
Espaço a gente cria. Ou então fica por aí reclamando da vida e pondo a culpa na falta de dinheiro ou na falta de casas de shows etc. Claro que é fato a diminuição de palcos no Rio, por exemplo. Mas quando comecei a fazer show em livrarias foi um choque inicial: “como assim? música na livraria?” E depois vieram os outros atrás da mesma idéia, achei bacana isso.

A internet facilita a entrada de um artista no cenário musical ou dificulta, levando em conta que se ela abre espaço para um artista, abre também para muitos, aumentando a concorrência?
Facilita e trai. Porém acredito que um trabalho de qualidade e potencial de ganho e venda, jamais vai competir com um trabalho que não o seja. Tem espaço e público para todos na internet, desde aquela música engraçada feita apenas para dançar e se divertir até a mais classuda. A internet bomba, é a nossa televisão moderna, é a vitrine que nos mostra o mundo, divulga e nos expõe, é imediato e incrível o resultado.

Qual sua relação com a internet no dia a dia? Quais sites acessa? quais indica?
Atualmente acesso e me correspondo pelo facebook. E sempre uso do myspace para ouvir, conhecer artistas do mundo todo e divulgar, também, os meus trabalhos.

 

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